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Quando a criança é hiperativa Imprimir E-mail
Sex, 19 de Novembro de 2010 11:55
Muitas crianças travessas são julgadas equivocadamente de ‘hiperativas’. Já outras que, de fato, possuem o problema, são consideradas apenas irredutíveis, difíceis de lidar no dia-a-dia. Os pais precisam ficar atentos às características, a fim de diagnosticar corretamente e tratar a criança, quando necessário. Segundo a psicóloga Cristiane Garcia da Costa Armentano, especialista em neuropsicologia, o primeiro passo para diferenciar as crianças hiperativas das agitadas é entender e compreender o que é hiperatividade.

Tratar de forma específica

Existem crianças com sintomas de desatenção e hiperatividade que apresentam outra causa para essa sintomatologia que não o transtorno de déficit de atenção/hiperatividade (TDAH), como aquelas com o diagnóstico de retardo mental ou autismo infantil, segundo o psiquiatra Gustavo Henrique Teixeira. “Apesar de, nesses casos, haver sintomas de desatenção, hiperatividade e impulsividade, as causas são outras, e o enfoque do tratamento também”, diz. A causa precisa do transtorno de hiperatividade ainda é objeto de muitas pesquisas, mas sabe-se que a influência de fatores genéticos e ambientais no seu desenvolvimento é ampla e fortemente aceita na literatura, de acordo com a neuropsicóloga Cristiane Garcia da Costa Armentano.

A hiperatividade não tem cura, mas pode ser administrada e modificada ao longo do tempo. O tratamento pode ou não ser medicamentoso e com intervenções cognitivas e comportamentais. A psicoterapia também auxilia quando existem problemas secundários ao transtorno (na escola, na família ou sociais), para ensinar a administrar as dificuldades do dia-a-dia e ajudar a atenuar o impacto na vida da criança. Contudo, se não for tratada pode fazer com que a criança se torne um adulto, por exemplo, sobrecarregado, workaholic, falante demais, com baixa tolerância à frustração, sem controle, entre outros distúrbios. A psicóloga cognitivo-comportamental Rosângela Minto Tostes diz que a hiperatividade não afeta a inteligência, porém pode provocar problemas de relacionamento familiar, com amigos e dificuldade também na escola. “Os pais ficam desgastados e as discussões e brigas são comuns”, diz.

Informar-se para educar

A educação de uma criança hiperativa tem de ser diferenciada. É necessário que os pais adquiram informações sobre o transtorno. A psicóloga Cristiane Garcia da Costa Armentano ressalta que não é justo punir uma criança por sua inabilidade. “Educar é preparar para viver, então, os educadores de uma criança hiperativa devem ensiná-la a administrar suas dificuldades e desenvolver habilidades.

Infelizmente, os problemas comportamentais incomodam todos que a cercam e produzem queixas como: ‘pare com isso’, ‘não faça isso’, ‘você não tem jeito, faz tudo errado’. Em decorrência a estas queixas freqüentes o hiperativo corre o risco de considerar seu mundo como negativo e controlador. E isso pode resultar, futuramente, num comportamento de resistência, oposição e desobediência, que por sua vez tem de ser punido de modo firme coerente e adequado”, esclarece Cristiane.

Para o psiquiatra Gustavo Henrique Teixeira, autor do livro “Transtornos Comportamentais na Infância e Adolescência”, da editora Rubio, simples mudanças na rotina da criança, como sentar em carteiras próximas ao quadro negro e longe de janelas, ajudam a focar a atenção mais facilmente. Assim como a determinação de rotinas de estudo, com horários predeterminados e combinados em conjunto com a criança, aplicação de pausas regulares durante o estudo, associadas a ambientes silenciosos, longe de estímulos visuais como brinquedos, televisão, rádio, telefone ou materiais escolares que não o de estudo naquele momento auxiliam na melhoria do rendimento escolar.

Dicas de livro:
- “Transtornos Comportamentais na Infância e Adolescência”, de Gustavo Teixeira, editora Rubio
- “Hiperatividade - Como lidar?”, de Abram Topczewski, Casa do Psicólogo
- “Hiperatividade - Como Ajudar Seu Filho”, de Meggie Jones, Plexus Editora


Sintomas que podem confundir com os da doença:

:: Há casos em que a criança apresenta sintomas que, em geral, são confundidos com os de hiperatividade, como:

:: Deixa de prestar atenção a detalhes ou comete erros por descuido em atividades escolares, de trabalho ou outras

:: Tem dificuldade para manter a atenção em tarefas ou atividades lúdicas

:: Parece não escutar quando lhe dirigem a palavra
:: Não segue instruções e não termina seus deveres escolares, tarefas domésticas ou deveres profissionais (isso nada tem a ver com a incapacidade de compreender as instruções)

:: Tem dificuldade para organizar tarefas e atividades

:: Evita, antipatiza ou reluta a envolver-se em atividades que exijam esforço mental constante (como tarefas escolares ou deveres de casa)

:: Perde coisas necessárias para tarefas ou atividades (por exemplo brinquedos, dever de escola, lápis, livros ou outros materiais)

:: É de fácil distração por estímulos alheios à tarefa

:: Apresenta esquecimento em atividades diárias

Sintomas de hiperatividade/impulsividade:

:: Agita as mãos ou os pés ou se remexe na cadeira

:: Abandona sua cadeira em sala de aula ou em outras situações nas quais se espera que permaneça sentada

:: Corre ou escala em demasia, em situações impróprias (em adolescentes e adultos pode haver sensações subjetivas de inquietação)

:: Tem dificuldade para brincar ou se envolver silenciosamente em atividades de lazer

:: Age como se estivesse “a todo vapor”

:: Fala em demasia

:: Dá respostas precipitadas, antes de as perguntas terem sido completadas

:: Tem dificuldade para aguardar a vez

:: Interrompe ou se mete em assuntos dos outros (por exemplo, intromete-se em conversas ou brincadeiras)

Dicas aos professores:

:: Criação de agenda escola-casa-escola (comunicação entre pais e professores)
:: Sentar o aluno na frente na sala de aula, longe de janelas e próximo ao professor
:: Agendar disciplinas mais difíceis pela manhã (enquanto os alunos estão menos cansados e mais atentos)
:: Pequenas pausas regulares a cada 40 minutos de aula
:: Ordens devem ser dadas de maneira objetiva e breve para facilitar o entendimento do aluno
:: Ensinar técnicas de organização e estudo
Permitir tempo extra para que esse aluno possa responder com atenção às perguntas
:: Estimular e reforçar positivamente atitudes assertivas do aluno
:: Questionar o aluno sobre dúvidas em sala de aula
:: Convidar o aluno a apagar o quadro negro, para reduzir inquietação
:: Elogiar atitudes e comportamentos positivos

Fase adulta sentirá os reflexos


O tratamento do transtorno de déficit de atenção/hiperatividade (TDAH) deve ser multidisciplinar, com a associação de medicamentos, intervenções psicossociais e psicoterápicas. O psiquiatra Gustavo Henrique Teixeira afirma que as medicações de primeira escolha para o transtorno são os psicoestimulantes. Ele comenta que até o momento, no Brasil, o único psicoestimulante existente é o metilfenidato. “Um fármaco seguro, eficiente e muito bem tolerado pelos pacientes”, diz. As intervenções psicossociais estão relacionadas com a educação e aprendizagem de pais, professores e paciente sobre o transtorno. Assim como, a terapia cognitivo-comportamental ajuda a criança a controlar sua agressividade, modular seu comportamento social e regular sua atenção.

Teixeira ressalta que se a hiperatividade não for tratada a criança pode apresentar uma série de prejuízos no decorrer dos anos. “Inicialmente, ocorre um baixo rendimento escolar e ela não consegue acompanhar sua turma, em seguida perde a auto-estima, sente tristeza, falta de motivação nos estudos e prejuízos nos relacionamentos sociais.” Além disso, pode desencadear episódios depressivos graves e durante a adolescência os prejuízos acadêmicos e sociais acarretados facilitam abandonos escolares ou da faculdade e/ou propiciar o início do uso abusivo de drogas e álcool. “Possivelmente, esses jovens se tornarão adultos inseguros, pouco habilidosos socialmente, com menos anos de educação, trabalhando nos piores empregos e com maiores dificuldades de serem absorvidos pelo mercado de trabalho”, afirma o médico.

Ele diz que vários estudos referem à associação do TDAH ao uso de drogas na adolescência. Entre 20% e 50% de pacientes dependentes químicos de álcool apresentam história de TDAH na infância; entre abusadores de cocaína e opióides a prevalência dessa associação pode chegar até a 45% dos casos. Adolescentes com o diagnóstico de TDAH experimentam drogas mais precocemente, as usam em maior quantidade, tornam-se mais dependentes e demoram mais tempo para buscar tratamento. “Todos esses fatos estariam relacionados a uma tendência maior de automedicação realizada por estes pacientes, na busca por alívio dos sintomas de inquietação motora, hiperatividade e agitação que o TDAH promove.”

Há também uma menor percepção do abuso, maior dificuldade de cessação do uso e menor senso crítico na escolha do grupo por esses jovens. Dessa forma o trabalho de identificação precoce do TDAH em crianças pode ser uma medida eficaz na prevenção ao uso de substâncias psicoativas na adolescência. “É bom lembrar que o tratamento não impede o desencadeamento do uso de drogas, pois esse uso depende de diversos outros fatores.”
O psiquiatra ressalta que é importante uma avaliação detalhada para um diagnóstico preciso e uma conduta terapêutica correta. “Se a criança não for hiperativa, a medicação não irá resolver. Os remédios funcionam apenas nos pacientes com prejuízos no sistema de atenção cerebral e no córtex pré-frontal do cérebro, onde a medicação atua e estimula a liberação correta de catecolaminas e ajuda no funcionamento correto dessa região cerebral.”

Trecho do livro:


“Doutor, eu não consigo falar com ele. Ele não pára quieto, não pára nem pra comer. Fica se remexendo na cadeira, pulando, gritando. Sempre a mil por hora e só “desliga a bateria” quando dorme. Já fui chamada na escola três vezes este mês. Ele não presta atenção em nada, vive no mundo da lua, brinca o tempo todo. Já botei de castigo, bati, gritei, tirei a televisão e o videogame do quarto... Nada funciona. E ainda por cima, tem gente que diz que é a mãe que não sabe dar educação ao filho!”

(Relato comum de mães com filhos hiperativos. Extraído do livro “Transtornos comportamentais na infância e adolescência”)

Responda a essas duas perguntas:

:: O meu filho ou aluno apresenta algum prejuízo acadêmico?

:: O meu filho ou aluno apresenta algum prejuízo de relacionamento social?

:: Se a resposta for positiva em uma dessas duas perguntas, está indicada uma avaliação comportamental com o médico psiquiatra infantil



Rosângela Tostes
Psicóloga - CRP 06 81495

Cristiane Garcia da Costa Armentano
Psicóloga - CRP 06 84458

Dr. Gustavo Henrique Teixeira,
Psiquiatra membro da American Academy of Child and - Adolescent Psychiatry e chefe do Setor de Neuropsiquiatria Infanto-Juvenil da Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro.




 
 
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