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Distúrbio de Aprendizagem – A criança e a escola Imprimir E-mail
Qui, 16 de Setembro de 2010 17:34
Deve-se considerar inúmeros aspectos relacionados à interação entre a criança e a escola, por exemplo: dificuldades da criança na escola e dificuldades da escola com as crianças, pois devem ser analisados reciprocamente.

Entre as inadequações entre a escola e a criança existem de imediato dois procedimentos opostos: - um em que a criança com dificuldades é uma criança desviante (patológica ou doente) e deve ser tratada em uma estrutura apropriada e outro em que situam-se aqueles para quem a estrutura escolar é ela própria inadaptada à criança e a única responsável pelo fracasso escolar.

O estudo das dificuldades escolares passou, em algumas décadas, de um ponto de vista puramente moral (o fracasso devia-se à preguiça da criança_, a um ponto de vista médico-patológico (defeito do equipamento neurofisiológico básico) e a um ponto de vista sociológico (inadaptação das estruturas escolares).

As principais queixas dessa inter-relação escola-criança são: fracasso escolar, rejeição escolar, fobia escolar) ou nas aprendizagens (discalculia).

Em todos os casos, face à inadequação escolar, deve-se levar em consideração os três parceiros: a criança, sua família e a escola – e tentar avaliar sua interação recíproca antes de considerar um auxílio terapêutico.

Na criança: deve-se distinguir entre as possibilidades de aprender e o desejo de aprender.

No desejo de aprender, atores numerosos intervêm, trata-se da motivação da criança que pode ser:
1)    de origem individual, reação de amor próprio e de prestância, prazer em saber, aprender, etc
2)    de origem familiar: estímulo parental, participação dos pais, etc;
3)    de origem social, valorização do conhecimento, partilha dos mesmos ideais que a instituição escolar.

O sistema de motivação evolui com a idade, passando progressivamente de uma motivação externa, tal como imitar o adulto, dar  prazer aos pais/professora, prazer pela competição, etc.

A família: intervém simultaneamente na dinâmica das trocas intrafamiliares e por meio de seu grau de motivação em relação à escola. Quando a criança deixa sua família para ir à escola, isso significa que passará uma boa parte de seu  tempo fora de casa: isso implica que os pais, sobretudo a mãe, aceitem esses novos investimentos e se alegrem com isso.

O nível sócio-cultural também representa um fator essencial de adequação criança-escola.

O grau de motivação da família também depende desse nível sócio-cultural. Alguns pais opõem sistematicamente seu filho à escola, denigrem-na e desvalorizam-na constantemente. A atitude oposta também pode provocar um bloqueio na criança.

A escola: é o terceiro tríptico desse triângulo relacional criança-famíla-escola.
Uma freqüência regular na Escola Maternal reduziria significativamente os riscos de reprovação na escola elementar.
A importância quantitativa do fracasso escolar mostra que a inadaptação da escola às estruturas sociais atuais deve  ser considerada na avaliação da inadaptação escola-criança antes que se possa declarar esta última “inadaptada”.
Por outro lado, a relação direta entre o nível sócio-cultural e o êxito escolar não pode mais ser colocada em dúvida: quanto mais baixo for o nível maior será o risco de fracasso escolar.
Verifica-se que o índice de fracasso escolar tem uma forte relação com o nível da qualificação profissional do pai e uma pequena relação com a existência ou não de um trabalho da mãe; em compensação, relaciona-se com o nível de estudos desta.

Algumas causas responsável pelo fracasso da escola:

1)    o não respeito aos ritmos próprios da criança (jornada escolar, etc);
2)    número demasiado grande de crianças por aula;
3)    evolução do status professor e de suas motivações (extrema feminização);
4)    a própria natureza da progressão escolar (tipo frontal, não permitindo a recuperação, mas sim, agravando o atraso).
5)    Evolução do papel da escola primária (objetivo não é mais dar  conhecimento concreto – ler-escrever, mas sim, prepará-la para o ensino secundário;
6)    A competência do professor (determina o êxito ou o fracasso do aluno)

Clínica de Dificuldades Escolares:

Quando uma criança é encaminhada  para um centro médico psicopedagógico, as dificuldades escolares que estão presentes em primeiro plano, porém, pais e professores utilizam uma grade sintomática muito variável onde se misturam valores morais (preguiça), valores médicos (dislexia, debilidade), valores sociais (relacionados à norma – “ele não está no nível”).

Os professores apontam algumas principais dificuldades das crianças:

Dificuldades de comportamento.....................43,5%
Dificuldades motoras......................................19,6%
Dificuldades de Linguagem............................17,5%
Dificuldades de Ordem Intelectual.................  9,1%
Problemas Sociais...........................................  5,6%
Perturbações Somáticas..................................  2,6%
Absenteísmo...................................................  1,8%

Em todos os casos, a instabilidade é o motivo mais freqüentemente assinalado, item em que os meninos estão nitidamente super-representados, Existem em compensação, variações de uma escola para outra, de um professor para outro, etc.

Dificuldades Específicas de Aprendizagem:

As dificuldades Específicas são as estritamente localizadas em um tipo de aprendizagem tal como a leitura, a escrita ou o cálculo e não acarretam, ao menos teoricamente, dificuldades em outros domínios.

Podemos definir a discalculia como um fracasso de aprendizagem dos primeiros elementos do cálculo e um fracasso na capacidade de manejar um número pequeno de modo adequado. Na forma mais completa a síndrome de Gerstmann associa:

- distúrbios de aquisição do cálculo;
- agnosia dos dedos;
- indistinção direita-esquerda;
- disgrafia;
- apraxia construtiva

Na realidade parece ser mais freqüente a associação de uma discalculia, de uma disgnosia digital  e de uma apraxia construtiva.

O estudo da função numérica através de provas piagetianas mostra que a dificuldade se manifesta em todos os aspectos do cálculo.

Atraso Escolar, Fracasso Escolar:

Distingue-se classicamente o atraso escolar do fracasso escolar, reservando-se a esse último termo para os atrasos superiores a dois anos. O atraso é sempre precedido do fracasso e, freqüentemente leva a esse se nenhuma medida preventiva for  tomada.

O fracasso escolar é diferente da queda do aproveitamento escolar: neste último casso, nota-se um período de escolaridade satisfatória antes que as condutas de fracasso apareçam.

O fracasso escolar “ permanente” aparece desde o início da escolaridade, por causas múltiplas: sociais, familiares, pedagógicas, mas também no nível da própria criança.

A debilidade mental:

Sabe-se da importância do fator sócio-econômico no determinismo da debilidade mental limítrofe, de modo que se observa aqui um efeito cumulativo entre a debilidade-limite e fracasso escolar, um reforçando o outro, satisfazendo-se o professor ou a Educação nacional com essa abordagem simplista.

A recusa escolar:

Pode assumir um aspecto massivo e ativo.

Algumas vezes, parece provir da criança que se opõe a qualquer aquisição escolar. Em outros casos, aparece como demonstração de hostilidade, mais ou menos manifesta, dos pais em relação à escola, em particular quando esses projetam massivamente seus antigos problemas sobre a vivência escolar atual de seu filho.

Muitas vezes a recusa escolar é componente de uma organização caracterial ou psicopática. Em outros casos parece resultar de uma inibição face à problemática edipiana, ou exigências excessivas dos pais, etc.

O desinteresse escolar:

Não se pode falar de desinteresse ou desinvestimento escolar senão no fim do período de latência e na adolescência.

O desinteresse escolar do adolescente assinala-se pelo desinteresse por tudo aquilo que se refere à escola, sua inutilidade, o tédio, etc.

O desinvestimento se faz acompanhar, de um significativo absenteísmo escolar e pode ir até a suspensão da escolaridade.

A inibição escolar:

Acarreta sofrimento na criança incapaz de trabalhar ou de se concentrar sobre a tarefa, apesar de seu desejo.

Traduz geralmente uma organização neurótica conflitual.

A fobia escolar, a recusa escolar ansiosa:

Em 1941, A. Johnson e col. utilizam o termo “fobia escolar” para descrever “ crianças que, por razões irracionais, recusam-se ir à escola e resistem com reações de ansiedade muito viva ou de pânico quando se tenta forçá-la.

Em 1956 situam o nó patológico não no medo da escola, mas na angústia de abandonar a mãe e introduzem o conceito de angústia da separação, sendo a recusa escolar apenas uma manifestação de suas expressões.

A idade do início da fobia escolar apresenta vários picos, em torno dos 5/7 anos, em torno dos 10/11 anos e no adolescente 12/15 anos.

É difícil ter uma idéia precisa da freqüência da fobia escolar na criança, na medida em que a maioria dos estudos inclui o adolescente, idade em que essa patologia parece ser mais freqüente.

Quanto mais nova a criança, mais parece difícil diferençar a angústia chamada de desenvolvimento de uma angustia de separação que se torna patológica.

* Clínica de Psicologia Rosângela Tostes
CRP 06/81495
Terapia Cognitivo Comportamental, Reabilitação Cognitiva e Exames Neuropsicológicos
 
 
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